"O Mestre na arte da vida faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu lazer, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir um corpo do outro. Ele simplesmente persegue sua visão de excelência em tudo que faz, deixando para os outros a decisão de saber se está trabalhando ou se divertindo. Ele acha que está sempre fazendo as duas coisas simultaneamente". (Texto budista)
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domingo, 11 de março de 2012

Minhas férias pula uma linha, parágrafo




Queridos leitores e amigos, depois de um ‘tempinho’ afastada de publicações do blog O Desafio de Ser Professor, retorno desejando um 2012 repleto de realizações e dando boas vindas a todos os novos seguidores que estão chegando.
Esse ano promete muita coisa boa, e parte dela já esta acontecendo em todos os âmbitos. Novos projetos, novos horizontes, meu ano de formatura em minha segunda graduação e segunda pós-graduação...  Estou muitíssimo animada, depois de um período angustiante em esperar mais algumas aulas. Mas quem é professor ACT (admitido em caráter temporário) vai entender perfeitamente do que digo, rsrs.
Mas vamos lá... sempre seguindo... sempre adiante... sempre avançando. Afinal, não podemos errar, lidamos com pessoas, não com máquinas. Quando se lida com máquinas, pode-se refazer, jogar a velha fora e fazer outra, etc. Quando se trabalhar com o Ser Humano, precisamos procurar acertar, pois não temos noção da projeção que isso pode repercutir na vida desse ser.
E brindando esse ano novo que está sorrindo para todos nós, escolhi uma história maravilhosa que conheci há uns dez anos atrás e acho fascinante (fascinante como é contada, mas sua lição é enorme e novamente nos remete a reflexão de como atingimos nossos educandos). Estamos realmente preparando-os para a vida ou nos preocupamos com um sistema que está preocupado com conteúdos e notas? Vamos lá, acompanhar a história?

 ‘Minhas férias pula uma linha, parágrafo’ (Christiane Gribe)


O primeiro dia de aula é o dia que eu mais gosto em segundo lugar. O que eu mais gosto em primeiro é o último, porque no dia seguinte chegam as férias. Os dois são os melhores dias na escola porque a gente nem tem aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está de férias. E no último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias. Era o primeiro dia e era para ser a aula de português, mas não era porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor. O que explica o fato de ninguém ter escutado a professora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com os livros em cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela. Ela estava em pé, na frente do quadro-negro e ficou em silêncio, com uma cara bem brava, olhando para a gente. Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a cara brava do professor. A professora puxou a cadeira dela e se sentou. Atrás dela, no quadro-negro, eu vi decretado o fim das nossas férias e o fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito: Redação: escrever trinta linhas sobre as férias. Eu sabia que as férias de ninguém iam ser mais as mesmas na hora que virassem redação. É simples: férias é legal, redação é chato. Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça. Todo mundo tirou o caderno de dentro da mochila. Menos eu. Eu fiquei olhando para aquela frase no quadro enquanto os zíperes e velcros das mochilas eram os únicos barulhos na sala. De repente as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho? Além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar trinta linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por cima com a letra ilegível depois de tanto tempo sem treino. 

A turma inteira já estava escrevendo quando eu percebi que a professora estava só olhando para mim. Quando um professor fica parado só olhando para você é porque você tinha estar fazendo outra coisa que não era o que você estava fazendo. A outra coisa que eu tinha que estar fazendo era minha redação. Então eu puxei a minha mochila e peguei o caderno. É claro que minha mochila tem o fecho de velcro e que todo mundo olhou para mim quando eu abri. Só a professora que não olhou de novo porque ela já estava olhando antes mesmo.
Peguei a caneta. Eu nem sabia mais segurar direito a caneta. Escrevi: Minhas Férias
Mas a letra ficou péssima e eu resolvi arrancar a folha para começar bem o meu caderno. E todo mundo olhou de novo para mim, até a professora que já tinha parado de me olhar. Troquei a caneta por um lápis, porque se a letra ficasse horrível era só apagar em vez de ter que arrancar outra folha. Coloquei as minhas férias lá no alto e bem no meio da página. Pulei uma linha. Parágrafo. 
Minhas férias
Outro problema de transformar as nossas férias em redação é fazer os dois meses caberem nas tais trinta linhas. Porque se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá. E aí você olha para o seu relógio e descobre que as trinta linhas, que pareciam poucas para contar todas as suas férias, viram muitas porque você só tem mais 15 minutos de aula para fazer a redação. Começar as férias é a coisa mais fácil do mundo. Em compensação, começar redação sobre as férias é tão difícil quanto começar as aulas. Fiquei me lembrando como é que eu tinha começado as minhas férias de verdade. Assim eu podia começar a redação do mesmo jeito. Mas eu comecei as minhas férias de verdade arrumando a mala para ir para a casa do meu avô. E agora só faltavam 12 minutos para terminar a aula. Em 12 minutos eu não ia conseguir arrumar a mala. Pelo menos não do jeito que a minha mãe gosta que eu arrume. Então decidi começar as férias de minha redação direto da casa do meu avô. 
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Principalmente porque não tem aula. Não. Talvez seja um começo de redação muito pesado para o começo das aulas.
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande. Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar. Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom. Achei que desse jeito a minha observação a respeito das aulas ficava mais sutil. Continuei. Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade. O gol veio de um passe de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo entre os meus melhores amigos da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tatica. O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola. Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho. Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemoração. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou para ele que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado. O sinal tocou bem nessa hora. Eu nem contei quantas linhas eu tinha escrito porque não ia dar tempo de mudar nada mesmo. Arranquei a folha e dei as minhas férias para a professora.

Depois da aula de português vinha aula dupla de educação física. A maior sorte que se pode ter num primeiro dia de aula é ter aula dupla de educação física. Dá até para ficar contente de ter voltado para a escola. E dá até para acreditar quando a nossa mãe fala que essa é a melhor época de nossa vida, quando ela faz aquele discurso que toda mãe faz. Discurso: “Aproveita, meu filho. Essa é a melhor época da sua vida. Ir para a escola é uma delícia. Quando você crescer vai se lembrar da escola e sentir uma saudade danada.” Minha mãe diz que é para aproveitar a escola porque depois que a gente cresce a gente fica cheio de problemas para resolver. Aí é que está. Eu ainda nem cresci e já estou cheio de problemas. Só no ano passado eu tive quer resolver 187. E não foi nem para mim. Foi para o professor de matemática. 

A semana passou bem rápido e quando a gente viu já era sexta-feira. Ter chegado a sexta-feira era ótimo. Agora só faltavam mais dezenove semanas para as próximas férias. A única coisa ruim é que na sexta eu tinha aula dupla de português e a professora ia trazer as nossas redações de volta. Quando a professora entrou na sala eu tinha acabado de puxar o elástico do sutiã da Mariana Guedes. Agora a moda das meninas era usar sutiã por baixo da camiseta. E a nossa moda era puxar o elástico para o sutiã estalar bem nas costas delas. Eu corri e a Mariana Guedes me jogou uma borracha bem na cara. Mas a professora foi olhar para a gente só na hora que eu joguei a borracha de volta. E aquela Mariana Guedes ainda abaixou e a borracha passou bem perto dos óculos da professora. A professora ficou me olhando de novo, igual no dia da redação, e então eu me sentei esperando uma daquelas broncas humilhantes no meio da classe. Mas a professora não falou nada. Quando você apronta uma dessas e o professor não fala nada, não é porque o professor é um cara bem legal. É que o que vem pela frente é pior do que o pior que você imaginava. O pior foi colocado bem em cima da minha mesa. As minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeitos. Faltou um esse no passe de craque do Paulinho, um acento na minha tática e a minha comemoração eu escrevi com tanta empolgação que acabou saindo com dois esses em vez de cê-cedilha. E o pior do que eu imaginava foi o que ela fez com o meu golaço que estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho. Ela disse que “em mil pedaços” é um adjunto adverbial e que tinha que ficar entre vírgulas. Eu olhei na Gramática e lá estava explicado que um adjunto adverbial é um termo acessório e a gente pode eliminar aquela parte da frase que ela continua a fazer sentido. Eu queria ver a professora dizendo para o meu vizinho que aqueles mil pedacinhos da janela dele eram só um adjunto adverbial. E tem mais uma coisa: eu estava de férias. Era muito mais importante marcar o gol do que as vírgulas, concorda? E as minhas férias ficaram assim:

Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande. Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar. Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom. Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade. O gol veio de um passe de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo (entre os meus melhores amigos) da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tática. O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola. Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho. Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemoração. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou (para ele) que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa não foi nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço, mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado.
(No texto original a redação do garoto vem toda riscada com as observações da professora)
A professora não fez nenhum outro comentário sobre o que eu tinha escrito. Para ela tanto fazia se o meu gol tinha sido um golaço ou um frango do goleiro. Eu fiquei bem chateado. Ela tinha acabado com as minhas férias. Isso significava que era a terceira vez que as minhas férias acabavam numa semana só. Não podia existir nada pior do que isso na vida de um garoto de 11 anos. Mas existia. 

No final da aula a professora me chamou na mesa dela. Eu tinha que fazer de lição para segunda-feira a análise sintática da frase: “Eu fiz um golaço tão grande que até furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho”. Era o fim. As minhas férias já tinham virado redação e agora acabavam de virar lição de casa. E uma lição dificílima. Fazer análise sintática! Eu nem lembrava mais o que era isso. Do jeito que as coisas vão, quando chegarem as minhas próximas férias eu não vou saber se é para ficar feliz ou triste. Eu vou falar “ah, não, férias me lembram redação e lição de casa” e ninguém vai entender nada. Então eu pensei que ainda bem que amanhã era sábado. Eu já comecei a me lembrar de que a turma do prédio tinha marcado pólo aquático na piscina. Peguei a minha mochila e saí correndo para não perder o ônibus para casa. Não me lembro se a professora continuou em sala ou não. Eu só me lembro que eu fui o último a sair. O fim de semana me fez esquecer da escola e da primeira semana de aula, o que foi bom. O único detalhe é foi que eu também acabei esquecendo da lição de português. E na segunda de manhã eu tive que fazer tudo correndo quando cheguei na escola, antes de tocar o sinal. Análise sintática já é uma coisa bem complicada quando você tem que fazer o exercício logo depois que a professora acabou de explicar como se faz. Imagina fazer depois das férias de verão quando você mudou da quinta para a sexta série mas nem se lembra como é que passou de ano. Eu peguei o meu caderno e escrevi a minha frase. Eu fiz um golaço tão grande que até furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho. Depois eu fui escrevendo o que eu me lembrava que tinha que ter numa análise sintática. 
Sujeito: Predicado: Objeto direto: Objeto indireto: Partícula apassivadora: 
Isso era tudo o que eu me lembrava. Então eu comecei a escrever do lado de cada coisa dessas uma análise sintática. Pus lá:
Sujeito: O meu vizinho. Que é realmente um sujeito de meter medo apesar de eu achar que ele deve ser legal porque está casado há um tempão com a mulher dele que é bem legal. 
Predicado: O meu vizinho de novo. Isso, se a gente colocar no meio dessa palavra a sílaba JU e então a palavra vira prejudicado porque ele foi mesmo o grande prejudicado dessa história. Objeto direto: A bola. Nem precisa explicar por quê. 
Objeto indireto: Eu. Porque a janela quebrou em mil pedaços por causa do meu chute, mas na verdade foi culpa da rede que furou.
Partícula apassivadora: Essa era a mulher do meu vizinho que apassivou a briga e se você reparar como ela é pequena eu acho que partícula é o que ela é.
Pronto. Acabei a lição e o sinal nem tinha tocado ainda. Fechei o meu caderno. Depois eu abri de novo. Lembrei-me de mais uma coisa que tinha na análise sintática e escrevi: 
Adjunto adverbial: em mil pedaços.
No final da aula de português eu deixei a minha lição na mesa da professora e fui para a minha aula dupla de educação física. 
Sete
Na minha aula dupla de português da sexta-feira, a professora me entregou a análise sintática. Eu tirei zero e tive que escrever toda essa história contando tudo isso que aconteceu para você. Ela me disse que você é que ia decidir o que fazer comigo, porque você é o Diretor dessa escola e ela não sabia que atitude tomar. Foi isso. 
Assinado Guilherme Pontes Pereira 6a. série B – Manhã 
No dia seguinte o Diretor me chamou na sala dele. Ele já tinha lido toda a história que eu escrevi e eu já estava pensando no que eu ia dizer para os meus pais quando ele me expulsasse da escola. Eu ia dizer: - Mãe, pai, fui expulso da escola. Eu entrei na sala do Diretor e me sentei na cadeira bem na frente dele. Quer dizer, na frente mais ou menos, porque era uma daquelas cadeironas que a gente afunda dentro, então o porta-lápis, que ficava na mesa do diretor, tapava a cara dele até o nariz. Mas ele chegou o porta-lápis para o lado e eu consegui olhar para ele bem de frente. E ele disse: - Guilherme, eu fiquei muito impressionado com a história que você escreveu. Você precisa fazer mais redações. Então ele me mandou de volta para a sala de aula. Eu fiquei pensando muito nisso tudo porque no começo eu não estava entendendo nada. Mas depois eu descobri por que escolheram aquele cara para ser o Diretor. Ele é bem inteligente. Fazer mais redações era mesmo um castigo muito pior do que ser expulso da escola’.

Queridos amigos e leitores, é ai que me refiro sempre...
Um grande beijo no coração de todos... (assistam aos vídeos, adoro-os... Permitam-se sonhar sempre...)
Paz... Sempre Paz...
Profª Jeana Andréa



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

UBUNTU - Eu Sou, porque nós somos!





Olá queridos!!!
Há tempos atrás recebi de um amigo querido um texto por email que achei simplesmente, divino. Porém, com a correria do dia-a-dia, vamos deixando de lado algumas coisas, e esse email, acabou ficando para trás. Não que ele não tenha me tocado a alma, pelo contrário. Mas vieram outras prioridades e ele foi esquecido nos ‘lidos’.
Como é de conhecimento de todos, minha profissão e minha paixão é ser PROFESSORA. Na terça-feira (01/02/11), como de costume, convidei as crianças do 4º ano 1 - matutino para fazermos a oração do Pai Nosso antes de iniciarmos as atividades da manhã. Feita a oração e depois de algumas palavras minhas, simplesmente aconteceu um fato que acertou em cheio meu coração. Pedi para que, enquanto aguardassem a aula de artes, as crianças fossem fazendo leitura silenciosa de um texto do livro de Português pois, após a aula de artes eu tomaria a leitura. Ao terminar de fazer esse pedido a elas, uma aluna levantou, agarrou a minha cintura ergueu sua cabeça para mim e disse:

- ‘Professora, queria te dizer muito obrigada.’ –  Eu fiquei ali, sem ação... aff, haja coração nessas horas... rsrsrsrs – Olhei para ela, sorri e perguntei o por quê daquele agradecimento. (Nesse momento a sala estava silenciosa esperando o término da história...). A pequena aluna me respondeu:
- ‘Estou lhe dizendo obrigada, porque se um dia eu me tornar alguém na vida, foi graças à “senhora” e aos seus exemplos... ‘ – Gentemmmm, hajaaaaaaaaa coraçãoooooooo mesmooooooooo... (Essa cena foi presenciada pelos outros 29 alunos do meu 4º ano 1)
Nem preciso dizer que além de tocar a alma, essa cena mudou todo o meu dia e me fez ‘re’ pensar muito de mim. Ao chegar a minha casa lembrei-me do email que mencionei a cima. Dadas às circunstâncias e ao acumulo de atividades e tarefas, tenho adiado muita coisa por falta de tempo, hoje resolvi publicá-lo, pois o ato de minha aluna simplesmente abalou minhas ‘estruturas’, rsrsrsrs.
Segue o texto abaixo, história linda enviada a mim pelo querido amigo Marcel Cervantes de Oliveira.



UBUNTU


A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em
Florianópolis (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África
chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e
costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo
transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito
tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma
brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem
bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele
chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam
sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces
que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e
esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "já!",
instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em
direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces
entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido
todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim,
comer muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar
feliz se todas as outras estivessem tristes?”

Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo,
e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou
jamais teria proposto uma competição, certo?’

Ubuntu significa: ‘SOU QUEM SOU PORQUE SOMOS TODOS NÓS!’


Com esse belo texto despeço-me, com muita gratidão no coração, em especial aos meus alunos (os que estão comigo esse ano e a todos os que já passaram por mim) e a todos os amigos e colegas de trabalho que sempre me incentivam e me acompanham nessa jornada maravilhosa.
‘Valemos pelo que somos, não pelo que temos...’

Como diz o amigo Marcel: ‘UBUNTU PARA VOCÊS!’
Assistam aos vídeos... são lindos e fofos...







Paz... sempre Paz!!!
Profª Jeana Andréa

domingo, 2 de outubro de 2011

A Tigela de Madeira


 ‘Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos.’

Pessoal, trago hoje, uma história muita interessante... Aprecio demais ela e a lição que ela nos traz.
Tenho acompanhado pelos meios de comunicação, notícias que cada vez mais me fazem crer que, somente através do AMOR conseguiremos formar uma sociedade pautada na verdadeira Paz e Igualdade.
Já comentei aqui e torno a comentar quantas vezes se fizerem necessárias que nossas crianças e jovens necessitam de nossos bons exemplos... Somente com exemplos e amor poderemos evitar tristes histórias como a do massacre corrida em Realengo no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril desse ano ou ainda, o lamentável episódio do aluno que atirou em sua professora e depois se matou no ABC Paulista no último dia 22 de setembro desse ano.
O que levou esses jovens a tomarem tais atitudes? Em que meio viviam? Que exemplos tinham presenciado em suas tão breves vidas?
Quem não se sente amado, acolhido, respeitado em suas individualidades, tende a se isolar, a fechar-se um mundo apenas seu e ‘arquitetar’ meios de que as pessoas a sua volta notem sua presença.
Eu mesma já publiquei diversos textos que falam sobre o assunto.
Meu apelo enquanto profissional da educação e ser humano social sempre foi e sempre será o de: ‘amem’... por favor, amem nossos jovens e crianças e deem bons exemplos a eles sempre. A história que segue abaixo nos dá uma excelente idéia de como nossas gerações futuras levam ao ‘pé da letra ‘nossas atitudes.
Com ela, deixo a simples mensagem que, de certa forma, não temos noção onde cessa nossa influência em nossas crianças e jovens. Após lerem, acredito que vocês entenderão o que quero dizer...

imagem retirada do site: http://blogmari-chan.blogspot.com/

Tigela de madeira

Um senhor de idade foi morar com seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade.
As mãos do velho eram tremulas sua visão embaçada e seus passos vacilantes.
A família comia reunida a mesa. Mas as mãos tremulam e as visões falhas do avô o atrapalhavam na hora de comer.
Ervilhas rolavam de sua colher e caiam no chão.
Quando pegava o copo, leite era derramado na toalha da mesa.
O filho e a nora irritaram-se com a bagunça.
-“Precisamos tomar uma providência com respeito ao papai”, disse o filho.
-”Já tivemos suficiente leite derramado, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.”
Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha.
Ali, o avô comia sozinho enquanto o restante da família fazia as refeições à mesa, com satisfação.
Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, sua comida agora era servida numa tigela de madeira.
Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes ele tinha lagrimas em seus olhos.
Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou comida cair no chão.
O menino de 4 anos de idade assistia tudo em silêncio.
Uma noite, antes de jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. 
Ele perguntou delicadamente a criança:
-“O que você esta fazendo?”
O menino respondeu docemente:
-“Oh, estou fazendo uma tigela de madeira para você e a mamãe comerem, quando eu crescer.”
O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho.
Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos.
Então lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.
Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que precisava ser feito.
Naquela noite o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa da família.
Dali para frente e até o final de seus dias ele comeu todas as refeições com a família.
E por alguma razão, o marido e a esposa não se importavam quando um garfo caia, leite era derramado ou a toalha da mesa era sujava. (desconheço a autoria)

Pense nisto...
Às vezes, você acha que, os jovens e crianças não nos observam. Porém elas geralmente não esquecem o que você disse, o que você fez, a sua atitude, o seu exemplo, a palavra que você pronunciou, de como você a tratou...
Pense nisto...
E é isso... é aí que sempre me refiro...
BjOo grande, Paz sempre Paz...
Profª Jeana Andréa

(não deixem de ver os vídeos, são belíssimos)








domingo, 21 de agosto de 2011

TUDO BEM, FILHO, TODO MUNDO FAZ ISSO.



‘Ensina à criança o caminho que ela deve seguir: mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar’ (Pv 22,6).



TUDO BEM, FILHO, TODO MUNDO FAZ ISSO.

(Jack Griffin)

‘Johnny tinha seis anos de idade e estava em companhia do pai quando este foi flagrado em excesso de velocidade.  O pai entregou ao guarda, junto à sua carteira de habilitação, uma nota de vinte dólares. “Está tudo bem, filho”, disse ele, quando voltaram à estrada. “Todo mundo faz isso.”

 Quando tinha oito anos, deixaram que ele assistisse a uma reunião de família, dirigida pelo tio George, sobre as maneiras mais seguras de sonegar o imposto de renda. “Está tudo bem garoto”, disse o tio. “Todo mundo faz isso.”

 Aos nove anos, a mãe levou-o pela primeira vez ao teatro. O bilheteiro não conseguiu arranjar lugares até que a mãe de Johnny lhe deu, por fora, cinco dólares. “Está tudo bem, filho”, disse ela. “Todo mundo faz isso.”

Com doze anos, ele quebrou os óculos a caminho da escola.  A tia Francine convenceu a companhia de seguro de que eles haviam sido roubados e recebeu uma indenização de 75 dólares. “Está tudo bem, garoto”, disse ela. “Todo mundo faz isso.”

 Aos quinze anos, foi escolhido para jogar como lateral-direito no time de futebol da escola. Os treinadores lhe ensinaram como interceptar e, ao mesmo tempo, agarrar o adversário pela camisa, sem ser visto pelo juiz. “Tudo bem, garoto”, disse o treinador. “Todo mundo faz isso.”

 Aos dezesseis, arranjou seu primeiro emprego nas férias de verão, trabalhando num supermercado. Seu trabalho: pôr os morangos maduros demais no fundo das caixas e os bons em cima, para ludibriar o freguês. “Tudo bem, garoto”, disse o gerente. “Todo mundo faz isso.”

 Já com dezoito anos, Johnny e um vizinho candidataram-se a uma bolsa de estudos. Johnny era um estudante medíocre. O vizinho era um dos primeiros da classe, mas um fracasso como lateral-direito no time de futebol.

Johnny ganhou a bolsa. “Está tudo bem, filho”, disseram os pais, “Todo mundo faz isso.” Johnny, flagrado colando, foi expulso da sala, e voltou para casa cabisbaixo. “Como você pôde fazer isso com sua mãe e comigo?”, disse o pai. “Você nunca aprendeu essas coisas em casa.” O tio e a tia ficaram também chocados.

Se há uma coisa que o mundo adulto não pode tolerar, é um garoto que cola nos exames...’

 

Meus queridos é aí que me refiro sempre...


O texto acima ilustra, perfeitamente, o quanto transigimos, muitas vezes sem avaliar a dimensão dos resultados de nossas ações. Costumo dizer que nossos exemplos, se imortalizam de alguma forma, em nossas crianças e jovens. O que observamos hoje tanto na mídia escrita quanto na falada é a propagação e inversão de falsos valores. É a escalada da corrupção, grandes crimes, autoridades descomprometidas com o crescimento da sociedade, o fortalecimento do egoísmo e a obtenção de vantagens sobre terceiros, guerras... etc. Mas quando vejo isso, faço uma reflexão pedagógica e me questiono: É isso que quero ver no futuro? É isso que quero que meus jovens propaguem?(Pausa para reflexão – citando o amigo Rui Palmela).

Porém, quando entro em minha sala de aula, tenho plena convicção que a resposta aos meus questionamentos é NÃO! Olho para aqueles ‘olhinhos’ sedentos por conhecimento e busco de todas as formas me imortalizar com exemplo de compromisso com o futuro. Afinal eles, os alunos, são minhas ‘sementes’ do amanhã... E de alguma forma, são eles que terão a missão de consertar essa ‘bagunça’ em que se encontra nossa esfera... Se for para se imortalizar, que seja no amor, no respeito, na generosidade, na gratidão, na alegria, no altruísmo...


Pessoal, encerro essa publicação com um texto bem interessante de Dorothy Law Nolte, e deixo dois vídeos para a reflexão do tema. E nunca esqueçamos do velho adágio popular: ‘UM EXEMPLO, VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS.’


BjoOo grande a todos,


Paz, sempre Paz


Profª Jeana Andréa

 

Crianças aprendem com a experiência


Se a criança convive com a censura,

ela aprende a condenar.

Se a criança convive com a hostilidade,

ela aprende a brigar.

Se a criança convive com o escárnio,

ela aprende a ser tímida.

Se a criança convive com a vergonha,

ela aprende a sentir-se culpada.

Se a criança convive com a tolerância,

ela aprende a ser paciente.

Se a criança convive com o encorajamento,

ela aprende a ser confiante.

Se a criança convive com o elogio,

ela aprende a apreciar.

Se a criança convive com a integridade,

ela aprende a justiça.

Se a criança convive com a segurança,

ela aprende a ter fé.

Se a criança convive com a aprovação,

ela aprende a gostar de si mesma. Se a criança convive com a aceitação e a amizade,

ela aprende a encontrar amor no mundo.

(Dorothy Law Nolte)

 



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Entregadores de Flores... entregadores de sonhos!




Compartilho com vocês, um texto maravilhoso que li no período de 62 dias, nos quais nós, professores do estado de Santa Catarina, nos encontrávamos em greve, reivindicando o cumprimento da lei que estabelece o piso do salário nacional para os profissionais da educação. 
Confesso que foi um dos textos mais lindos e coerentes que li durante toda essa mobilização...

'Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer. ' (Mahatma Gandhi)

'Antes de terminar a primavera, Josué cumpria sempre o mesmo ritual, que no seu entender de homem simples e organizado, era de sua obrigação. Assim como era obrigação do homem do lampião acender todas as noites, pontualmente às sete horas, todos os lampiões da vila. Assim como era obrigação do guarda noturno velar pelos sonhos alheios.
Josué era um homem de obrigações, obrigações que lhe foram chegando com os anos vividos… Era também um ser solitário, pois os seus também foram partindo com os anos vividos. E ele ficara sem entender como a solidão se aconchegou em sua alma.
Na pequena vila, distante de tudo e de todos, Josué levava uma vida pacata, que mudava quando a primavera estava para acabar, e a presença das flores ainda coloria o vale.
Era então chegada à hora de Josué cumprir a sua tarefa, era o momento sublime da vida rotineira e solitária de Josué.
O homem então, dentro da sua razão de homem incumbido de algo divino a realizar, esperava ansioso o dia amanhecer, e quando o homem do lampião apagava o último lume, quando o guarda noturno dava seu último apito, Josué saia pelos campos orvalhados pela noite, acompanhado de suas ideias e obrigações, ia colhendo com cuidado todas as flores que encontrava pelo caminho e guardava-as em um saco já bastante surrado pelos anos de uso. Assim, Josué passava o resto do dia, catando flores e mais flores, até o anoitecer.
Aí então, ele esperava a vila dormir e o guarda noturno cochilar nas escadarias da igreja (segredo que só Josué conhecia) e saía pelas ruas espalhando as flores colhidas durante o dia… Espalhando-as generosamente nas calçadas, na frente das casas do comércio, na cadeia local, na pequena escolinha, e até mesmo na área de uma casa, que segundo suspeitas dos moradores locais, funcionava um cabaré!
O saco aos poucos, ficava vazio, preenchido pelo forte perfume das flores.
Quando a vila acordava Josué já estava longe, já não tinha mais obrigações!
E o povo da vila mais uma vez despertava com o perfume das flores embriagando suas vidas, e ninguém conseguia descobrir o autor de tão maravilhosa obra.
E assim Josué foi enterrado em uma vala comum, na terra úmida e escura. E não me lembro de ter visto algum vaso com flores na sua sepultura!
E também nunca mais o povo da vila acordou com o perfume das flores…

Sejamos todos nós, professores, entregadores de flores… Não importa o lugar, não importa quem as receba, nem mesmo se seremos recompensados pelos governos que passarão diante de nossos olhos.
O mais importante é que em nossas mãos ficarão os perfumes das flores ofertadas, e os nossos ensinamentos se perpetuarão nos corações dos nossos educandos. '
(AUTOR: Professor Angelo de Souza. Apae de Braço do Norte)
O vídeo completa a mensagem...



Deixo aí a linda mensagem, para que ela sirva de exemplo à todos que abraçaram a nossa luta. E também deixo o meu abraço e o meu carinho a todos os ‘Grandes Guerreiros Professores’ que persistiram enquanto muitos retrocederam ou nem ‘embarcaram’ nessa batalha linda que nos uniu infinitamente e criou laços fortíssimos de amizade. A vocês todos, meus queridos colegas de trabalho e amigos, minhas reverências!

‘A História tem demonstrado que os mais notáveis vencedores normalmente encontraram obstáculos dolorosos antes de triunfarem. Eles venceram porque se recusaram a se tornarem desencorajados por suas derrotas.’ (B. C. Forbes)

BjOo grande, linda vida sempre...
Paz... sempre Paz...
Profª Jeana Andréa

terça-feira, 28 de junho de 2011

Os Códigos da Modernidade


            Imagem retirada so site: http://mundobichogrilo.blogspot.com/2010/08/saude-do-beija-flor.html

Olá pessoal, hoje gostaria de compartilhar com vocês os Códigos da Modernidade.

Num total de sete, os Códigos da Modernidade, foram enumerados por Bernardo Toro.

Filósofo e educador colombiano, Bernardo Toro é um dos mais importantes pensadores da educação e democracia na América Latina. Estudou Filosofia e, depois, Física e Matemática, em cursos de licenciatura. Fez pós-graduação em Investigação e Tecnologia Educativa. É decano acadêmico da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Javeriana, em Bogotá, e autor dos livros: A construção do Público: Cidadania, Democracia e Participação, Educação, Conhecimento e Mobilização e Fala Mestre: Precisamos de Cidadãos do Mundo.
É presidente da Fundação Social, entidade civil que se propõe a combater a pobreza no país. Foi consultor de reformas educativas em Minas Gerais e no Chile.

Esse século será de muito trabalho para nós, professores, e os desafios serão muitos. Nesse sentido, nos caberá o papel de mediador no processo educativo, tornando possíveis as conexões necessárias e precisas, para que o aluno obtenha a aquisição do saber.

 ‘Ao pensar sobre o dever que tenho como professor, de respeitar a dignidade do educando, sua autonomia, sua identidade em processo, devo pensar também (...), em como ter uma prática educativa em que aquele respeito, que sei dever ter ao educando, se realize em lugar de ser negado... é que o trabalho do professor é o trabalho do professor com seus alunos e não consigo mesmo.’ (do livro: Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa, de Paulo Freire, p. 71)

O Educador Bernardo Toro, elaborou uma lista onde identifica as Sete Competências que considera necessárias desenvolver nas crianças e jovens para que eles tenham uma participação mais produtiva no século XXI. São os chamados Códigos da Modernidade:

  • Domínio da leitura e da escrita;
  • Capacidade de fazer cálculos e resolver problemas;
  • Capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e situações;
  • Capacidade de compreender e atuar em seu entorno social;
  • Receber criticamente os meios de comunicação;
  • Capacidade de localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada;
  • Capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo.

Abaixo um resumo de cada uma delas:


Primeiro Código:
Para participar do século XXI, todas as crianças devem ter altas competências em leitura e escrita. A diferença atual entre essas competências por parte das crianças da Europa e da América Latina é gigantesca. O fracasso não é dos alunos, mas da escola, dos professores, dos métodos. Nós é que devemos mudar. A leitura e a escrita são hoje problema de sobrevivência. Não se admitem mais desculpas para o fato do analfabetismo.

Segundo Código:
Refere-se a altas competências em cálculo matemático e em solução de problemas de toda a ordem. Nós não temos ensinado às crianças a resolução de problemas, e é isso que precisa ser ensinado em várias áreas do conhecimento. O profissionalismo consiste em resolver problemas. A leitura e a escrita, o cálculo matemático e a resolução de problemas são aprendizagens que todas as crianças devem ter.

Terceiro Código:
Refere-se a altas competências em expressão escrita, em três aspectos: precisão para descrever fenômenos e situações; precisão para analisar e comparar; e precisão para expressar o próprio pensamento. Essas competências são fundamentais para a vida urbana. É essencial que as crianças das primeiras séries escrevam, todos os dias, pelo menos de seis a dez linhas de sua própria criação. Temos de gerar uma tradição de leitura e escrita, não apenas uma habilidade. A criança deve, diariamente, expor seu pensamento por escrito.

Quarto Código:
Consiste na capacidade para analisar o ambiente social e criar governabilidade; isso significa formação política e democracia. Governabilidade é a capacidade de um país de elaborar suas leis e cumpri-las, e a capacidade de um povo de solucionar seus próprios conflitos sem violência. Isso só é possível quando a criança aprende desde pequena a analisar, criticar e comparar ambientes sociais. Isso é formação política, e é fundamental para a produtividade. É preciso não confundir formação política com formação partidária. Formação política significa formar pessoas capazes de, junto com outras, criar a ordem que elas mesmas vão viver, cumprir e proteger.

Quinto Código:
É a capacidade para a recepção crítica dos meios de comunicação de massa. Atualmente culpamos a televisão pelo não-aprendizado das crianças. Pesquisas, entretanto, provam que a televisão desenvolve habilidades de aprendizagem, o alto nível auditivo, o alto nível de discriminação visual, a capacidade de estabelecer seqüências, de formular hipóteses, de tirar conclusões parciais e totais. Tudo isso a televisão desenvolve em alto nível. Não faz sentido desligar a televisão. Os valores, as crianças os aprendem no contato com os adultos que as rodeiam. O sistema de valores de uma sociedade emerge de seu sistema de punições e recompensas. As crianças vão valorizar a cooperação, a amizade, a solidariedade segundo o sistema de premiações dos adultos, não de acordo com o discurso desses adultos. Esse sistema de recompensas e punições pode ser explícito ou implícito. Então, o que temos que fazer é observar e discutir programas de televisão com as crianças. Alguns minutos por dia são suficientes para desenvolver nas crianças esse espírito crítico.

Sexto Código:
Refere-se à capacidade para planejar, trabalhar e decidir em grupo. Esse código exige a passagem do método frontal para o método de aprendizagem cooperativa em grupos. Todo o Ocidente admira a capacidade dos japoneses de trabalhar em grupo. Essa capacidade não se aprende na empresa; aprende-se na escola. Isso é uma cultura que não se ensina pelo discurso, pela aula magistral, mas pela aprendizagem cooperativa dos grupos.

Sétimo Código:
Relaciona-se à capacidade para localizar, acionar e usar a informação acumulada. No futuro, a criança não precisará ter o conhecimento no cérebro. O conhecimento estará materializado nos livros, computadores, vídeos, filmes, fibras óticas. O que a criança precisará é de ter capacidade para localizar, acionar e utilizar essa informação acumulada.

E é isso pessoal... É aí que me refiro sempre: Nosso papel de educadores é o de mediadores dentro desse contexto, mediando às situações de sala de aula, com situações reais. Pois o aluno acumula saberes, passa por exames, mas não consegue usar o que aprendeu em situações reais. ‘Não nos esqueçamos de que, no final das contas, o objetivo principal é democratizar o acesso ao saber e as competências. Todo o resto é apenas um meio de atingir esse objetivo.’(Revista Nova Escola, Construindo Competências, p. 21)



BjOo grande...
Paz, sempre Paz...
Prof. Jeana Andréa

‘APRENDER A LER E A ESCREVER (...) SÓ SÃO IMPORTANTES QUANDO SERVEM PARA FAZER NOSSOS JOVENS MAIS HUMANOS!’ (Hamilton Werneck)