"O Mestre na arte da vida faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu lazer, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Ele dificilmente sabe distinguir um corpo do outro. Ele simplesmente persegue sua visão de excelência em tudo que faz, deixando para os outros a decisão de saber se está trabalhando ou se divertindo. Ele acha que está sempre fazendo as duas coisas simultaneamente". (Texto budista)

domingo, 24 de julho de 2011

Sobre computadores e Deus





Hoje lendo o livro de Rubem Alves, intitulado: ‘Entre a ciência e a sapiência’, achei um texto muito interessante com o título: SOBRE COMPUTADORES E DEUS. Como admiro muito o trabalho desse educador, compartilho com vocês o texto.
Boa leitura pessoal...


Sobre computadores e Deus 
Por Rubem Alves
‘O livro do Apocalipse fala de um animal horrendo a  que, na falta de um nome específico para nomeá-lo, dá o nome de “Besta”, cujo número é “666”.
A Besta é o Anticristo que, com todas as forças satânicas do universo, se defrontará com os exércitos celestiais, na batalha final do Armagedon. Diante de visão tão horrível, os conhecimentos da arte da interpretação dos sonhos que aprendi da psicanálise me faltam, e fico sem saber o que dizer. Sei que isso é devido à minha incompetência porque fui informado que várias seitas religiosas, conhecedoras dos demônios, já identificaram a Besta, o Anticristo, o “666”. Criatura Infernal e esperta que é ele esconde suas muitas cabeças e chifres, apresentando-se disfarçada sob a máscara de uma coisa aparentemente boa e inofensiva. A Besta – assim afirmam esses que conhecem o demônio pessoalmente – é o computador.
Compreendo que veja a Besta no computador. Diz Bernardo Soares, heteronônimo de Fernando Pessoa, que “o que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”, com que a psicanálise concorda. Conclui-se, assim, que o número de demônios vistos do lado de fora é precisamente igual ao número de demônios que moram dentro daquele que os vê.
O Antigo Testamento conta a história de outra besta, igual a essas que conhecemos animal modesto e forte, de carga, fazedor de trabalhos, cumpridor de ordens. Assim era a besta de um homem chamado Balaão. Pois o dito cujo, depois de ouvir a palavra de Deus, resolveu fazer o contrário, montou em sua besta para ir em direção oposta. Pois não é que o modesto animal voltou-se repentinamente para o seu dono, repreendeu-o em hebraico impecável, e fez com que ele ouvisse a voz de Deus? Os animais e coisas, mudos e sem fala, podem repentinamente se pôr a falar e se tornar mestres dos que prestam atenção.
O computador, guardadas as devidas proporções, muito se parece como animal de Balaão: é uma besta de carga de que me valho para trabalhar menos, mais rápido e melhor. Pois comigo aconteceu igual, e a minha besta eletrônica, à semelhança da besta de Balaão, começou a conversar comigo assuntos que não são de computador, assuntos sobre os quais ele não conversa com especialistas. Ele não o faz porque os técnicos em computação, à semelhança dos relojoeiros que só pensam em relógios, só pensam computadores. Como eu nada sei sobre computadores, o computador começou a conversar comigo sobre – pasmem! – tecnologia! Isso mesmo. Os mesmos computadores que, para uns, são a encarnação da Besta, para mim são a encarnação da mansa besta de Balaão, e me falam sobre as coisas de Deus.
 
Explico-me:

Não tenho religião. Tenho sob suspeita todas as instituições religiosas: mas tenho “sentimentos religiosos”. Para ter sentimentos religiosos eu não preciso ser adepto de religião alguma; não preciso acreditar em nada. Sentimento não acredita. Eles simplesmente “são”.  Comovo-me com um pôr do sol, sinto saudades, fico alegre numa manhã radiosa e fresca. Para isso eu não preciso acreditar em nada. Basta-me estar vivo. Assim são meus “sentimentos religiosos”: não dependem nem mesmo de que eu acredite em Deus. Lembra-se da música de Chico que fala da mãe que arruma o quarto para o filho que já morreu? Há sentimentos que crescem na ausência. Assim, posso ter sentimentos religiosos diante da ausência de Deus.
Meus sentimentos religiosos se formam assim. Primeiro, é uma alegria diante da beleza da vida. Nada grandioso. Minha alegria cresce de coisas pequenas: um haikai de Bashô, um poeminha de Cecília, uma pecinha de Bach, o “Pequeno livro de Ana Madalena”, café com leite, pão e manteiga, a presença tranquila do cachorro, o gosto e o cheiro do jambo (comi alguns ontem, na fazenda Santa Elisa), o chuveiro quente (lembram-se da cena do primeiro banho do anjo que havia se tornado homem, no filme Cidade dos Anjos?), ficar deitado na rede, o retorno da borboleta...
Amo essas coisas. E o amor não suporta que elas acabem. O amor é sempre uma súplica de eternidade: “Que aquilo que se perdeu me seja devolvido!” Assim reza o amor – sempre... Essa reza é o coração da religião.
E aí eu me dou conta de que essa oração não é só minha. Todas as coisas vivas desejam viver para sempre. É por isso que a natureza inventou um truque de eternidade: cada coisa viva tem dentro de si, uma passagem de volta. É por isso que as plantas florescem. É por isso que os animais copulam. Todos querem plantar suas sementes. Cada floração e cada cópula é uma súplica de eternidade.
Cada semente de planta ou bicho contém um “programa”, igual aos dos computadores, chamado DNA.  O DNA de cada coisa viva é a garantia da sua eternidade. Cada semente, lugar do DNA, é um disquete com a receita para aquilo que morreu venha de novo à vida.
Assombro-me que a natureza tenha inventado tal artifício de eternidade. Se não o tivesse feito, toda vida já teria desaparecido.
E nós?  Diferentes dos animais e das plantas. Nos animais e nas plantas o DNA é a receita completa: todas as informações estão lá. Mas nós somos diferentes. Nosso programa não está concluído. Temos de inventar o que está faltando. Há, em nossos corpos, um espaço vazio que nos desafia a criar. É o que se chama “liberdade”. A ciência, a poesia, a arquitetura, a música, a culinária, as religiões, a jardinagem, as artes eróticas, o brinquedo: tudo isso são invenções humanas para completar aquilo que falta em nosso DNA. É assim que fazemos nosso software, nossa alma.
E eu me perguntei se a natureza tão cuidadosa em garantir a eternidade dos pernilongos, dos sapos, dos sabiás, dos eucaliptos, dos girassóis e das violetas, não teria um artifício também para garantir a eternidade das coisas belas que inventamos. Seria uma pena se elas se perdessem!
Lembrei-me que os computadores possuem uma peça chamada “disco rígido”, ou winchester: é o lugar onde as “informações”  são “salvas”.  Essa palavra “salvar” pertence ao discurso religioso. Cristo salva!  Seu contrário é “perder”. Quando uma informação é “salva” ela não se “perde”. O texto está vivo na tela. Se eu desligar o computador ele some, morre se “perde”. Mas, se antes de desligar eu o “salvar”, então, mesmo com o computador desligado, ele estará preservado na “memória” do computador. Pelo poder da memória do computador os mortos que nela estão “salvos” podem ressuscitar.
Brinquei então com a idéia (de tão louca a onde acho que ninguém ainda a pensou) de que é possível que o universo também tenha um “disco rígido” onde as coisas que vão morrendo fiquem “salvas” numa memória cósmica. Assim, nada se perderia. Só que, na minha fantasia, só são “salvas” as coisas que amaram e foram amadas. As outras, que nem amaram nem foram amadas, são “deletadas”, desaparecem.  Assim, tal e qual no computador, aquilo que morreu e foi “salvo” na memória cósmica pode repentinamente ressuscitar...
Qual seria o nome apropriado para essa memória do universo que salva, eternamente, as coisas do amor e apaga, eternamente, as coisas do ódio? Talvez Deus.
Viram? O computador me fez pensar fantasias teológicas que ninguém antes pensou. Fico rindo de felicidade enquanto minha bolha de sabão vai subindo... ‘

É aí que sempre me refiro... rsrs... Deixo aí a reflexão e a provocação!

Assistam aos vídeos, entrevista super gostosa com Rubem Alves. Deletei-me assistindo-os.











Abraços, linda vida...
Paz... sempre Paz...
Profª Jeana Andréa